quarta-feira, 23 de julho de 2008

E. C. Bahia

Estava lendo uma matéria de Maurício Moura Costa Guimarães, fazendo duras criticas a imprensa do Sul, quando o assunto é o preconceito com o Nordeste, até no futebol. Não pude deixar de passar isto para vocês. Leia a matéria:

"Mais um, Bahia!"

Elias faz um golaço da porra e vocês querem dizer que foi Felipe que
falhou?
"Eu sou Bahia. O time, o Esquadrão de Aço. A mascote é o super-homem
tricolor, criado por Ziraldo, em 1979. Baêa! É assim que se grita (ou
melhor, se gritava) na Fonte Nova. Eu era menino de tudo, menino pequeno
em meados dos 1970, minha mãe me levava para a Fonte Nova, nas cadeiras
numeradas, azuis, ao lado da geral, uma zorra. O Bahia tinha um timaço.
Tinha o arqueiro Joel Mendes, a quem quis imitar, de manga comprida
alaranjada, nas areias de Amaralina, onde meu irmão, craque de bola, fazia
brilhar o Clube de Regatas Canadá, uma invenção a partir do nome do
cursinho onde estudávamos, o Curso Canadá, em 1976, para fazer o
vestibular do Colégio Militar de Salvador. Passamos, os dois, é bom que se
diga. Eu queria ser o arqueiro Joel Mendes, goleiraço do Bahia, porque na
linha eu era, como ainda sou, um quadrúpede de patas amarradas. Então, eu
pulava na areia, fazia defesas no canto da trave de casca de côco e
imitava os locutores do Campo do 4, na TV Aratu: ?Seguuuuuuuura o arqueiro
Joel Mendes?.

Tinha um ponta-direita, Gesum, baixo, veloz, furioso. Quando ele corria
pela ponta, a torcida se levantava, histérica. Eu pulava na cadeira,
puxava os cabelos (na época, os tinha em profusão) e gritava: ?Cruza,
porra, cruza!?. Minha mãe me puxava, jovem, linda, de cabelos presos.
?Olha a boca, menino!?. Naquela época, não se falava palavrão na frente de
mãe e pai, de jeito nenhum, levava era um tabefe nos beiços, mas no
estádio eu aproveitava a balbúrdia para gritar uns ?porras?, que na Bahia
é vírgula, bem altos. Então, Gesum cruzava e Beijoca marcava. Beijoca, um
trator de cem quilos de truculência e uma capacidade inata de estar sempre
no lugar certo. Era um artilheiro com um encontro marcado com a bola.
Gesum cruzava e lá estava Beijoca, aquela presença enorme e improvável na
pequena área. Abria a defesa adversária com os braços e voava na bola, de
cabeça, com os pés, os joelhos e a barriga. A Fonte Nova explodia. ?Alalaô
ôôô ôôô, Gesum cruzou e Beijoca marcou?, cantava a torcida tricolor, no
ritmo da marchinha carnavalesca, eu no meio, eu mais minha mãe, porque meu
irmão era Vitória, sofria caladinho, no meio da folia do Bahia.

Tinha, também, Baiaco e Sapatão, na zaga. Douglas e Fito, no ataque.
Depois, em 1988, aquele timaço campeão brasileiro, Bobô, Charles e
companhia. Eu estava na Fonte Nova no primeiro jogo da decisão contra o
Internacional de Porto Alegre, mais de 100 mil torcedores, o estádio
tremia (mas só foi desabar 20 anos depois) de alegria. Eu assisti da
tribuna da imprensa, lotada de penetras, quando apareceu um repórter da
Zero Hora, protótipo do gaúcho tipo exportação: loiro, alto, sotaque
exagerado, uma cuia de chimarrão na mão. Aquele calor da porra e o babaca
chupando aquela urina quente só para se amostrar. Fez questão de comentar
bem alto que era ?impossível? o Inter perder para o Bahia. Foi 2 a 1 para
o Esquadrão de Aço, de virada. O babaca saiu com o rabinho entre as
pernas, mijando chimarrão frio.

Da última vez que estive na Fonte Nova, um jogo antes de o estádio ruir e
matar sete torcedores na arquibancada, o Bahia empatou com o Atlético
Goianiense, 1 a 1, com gol contra da zaga tricolor. Um jogo péssimo, de
terceira divisão mesmo, que é onde o time se encontrava. Mas só sendo
Bahia para entender aquilo lá, a Fonte Nova com 60 mil torcedores, gente
de todas as idades, entoando o novo canto de guerra ?Vumbora Baêa minha
porra!?. Olhe só: ?Minha porra!?. Fiquei emocionado. A meninada não
precisava mais esconder o palavrão, cantava junto com os pais. ?Cruza,
porra!?. Mas Gesum não estava mais lá, muito menos o gordo Beijoca. Mas o
Bahia subiu, vive aos trancos na segundona e, ainda assim, é capaz de
surpreender, como no jogo contra o Corinthians, no último domingo.

Chegamos, então, ao fato revelador do preconceito eterno da imprensa do
sul-maravilha contra o time nordestino, coisa que vai do repórter que
cobre ao editor que edita, sem falar na torcida descarada dos locutores de
todas as emissoras. Elias bate uma falta linda, dificílima, cruzada, na
gaveta direita do gol do Corinthians. Um golaço, golaço, aos nove minutos
do primeiro tempo, Pacaembu lotado, a Fiel toda lá, cantando, gritando,
uma torcida da porra. Os tricolores espremidos num canto, incapazes quase
de serem vistos e ouvidos, mas lá, na arquibancada. Um gol da porra! E me
vem a primeira chamada, no UOL, ainda no domingo: Felipe falha e Bahia
tira invencibilidade do Corinthians. Um dia depois, manchete na Folha de
S.Paulo, copiada aqui e ali pela imprensa do sul: Bahia derruba
invencibilidade do líder da Série B após falha do goleiro Felipe, torcedor
do Vitória.

Quer dizer que Elias mete um golaço na gaveta do goleiro, uma falta batida
com absoluta perfeição, e o Bahia ganhou porque o Corinthians foi vítima
de uma falha? Vá pá porra, como se diz em Salvador! E os outros 81 minutos
de jogo? Por que o Corinthians não virou para 10 a 1? Felipe não falhou
nada, levou foi um golaço nas ventas, de cobertura, coisa linda de se ver.
E o Bahia se manteve digno, cabeça erguida, diante de um Pacaembu
estupefato, paralisado pela capacidade de reação de um time sofrido,
espoliado, reduzido à sombra de seus dias de glória. Ali, no enclave
tricolor onde meia dúzia de gatos pingados se acotovelava com bandeiras e
cornetas, só dava para ler nos lábios da galera um trecho do hino do time:
?Mais um, mais um Bahia, mais um, mais um título de glória!?. Há 18 anos o
Bahia não perde para o Corinthians em São Paulo. Ou seja, em solo
paulista, o Coringão é freguês!

O título de verdade, que deveria estar estampado em todos os jornais do
dia seguinte, é este, do site oficial do Bahia
(www.esporteclubebahia.com.br): Bahia derruba último invicto, mantém tabu
e cala o Pacaembu.

E não se fala mais nisso.

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